Historia da Telemedicina no Brasil: Desafios e Perspectivas

16 de julho de 2021

Telemedicina no Brasil

A Telemedicina no Brasil teve o Coronavírus como um acelerador para algo que certamente aconteceria. Presenciamos um adiantamento de dois, talvez cinco anos, em seis meses e a regulamentação da telemedicina é uma das matrizes de propulsão. 

O presente artigo objetiva te ajudar a entender o que é telemedicina e quais são as suas perspectivas para o futuro. Ficou curioso? Então, aproveite todo esse conteúdo.

Aqui você saberá:

  • História da Telemedicina: Quando e onde surgiu
  • História da Telemedicina no Brasil 
  • Qual será o futuro da Telemedicina no Brasil?
    • Desafios e perspectivas
    • Inovações em Inteligência Artificial (IA) e porque as grandes empresas estão de olho
    • Como a telemedicina poderá revolucionar a vida dos médicos
    • A Ascensão das Healthtechs e a telemedicina
    • Outras perspectivas do futuro da Telemedicina

É importante que você saiba que a regulamentação no Brasil da telemedicina veio a partir da resolução de 26/08/2002, que limitava o médico a ‘’poucos cuidados’’. Outro aspecto importante, nossos pacientes começaram a enxergar vantagens a ponto de demandar por esse tipo de experiência. Por fim, estão descobrindo aos poucos que a telemedicina é algo benéfico.

A mudança do paradigma legal deu-se perante a elevação assombrosa dos casos de COVID-19 no Brasil, a partir da Lei 13.989/2020, que liberou em caráter temporário o uso de (“novas”) ferramentas digitais como estratégia para atenuar os efeitos da pandemia.

Então, sem dúvida, a pandemia veio validar o que falávamos: a telemedicina é útil e veio para ficar, doa a quem doer. Antes da disseminação do coronavírus, havia dúvidas sobre o uso da Telemedicina com ramos mais abrangentes. Ampliamos aqui no Brasil a percepção de cuidado (a distância) e promoção de saúde. 

Sem dúvida a telemedicina pode resolver inúmeros casos remotamente, otimizando os tempos de médicos e pacientes e gerando economia de recursos.

Este é um, de uma série de artigos que irá te explicar desde o que é a telemedicina, como escolher uma plataforma, um e-book instruindo como fazer uma teleconsulta e até mesmo uma análise do porquê é um nicho de grande oportunidade. 

Nosso propósito com esta série de artigos é ampliar a sua percepção da experiência de cuidado, para os pacientes e para nós médicos.

Afinal, nossa prática agora se expande para além das fronteiras de um centro cirúrgico e um consultório – amém!

História da Telemedicina: Quando e onde surgiu?

Conforme definido pelo escritor e cientista Dr Renato Sabbatini a telemedicina é o “uso de tecnologias de telecomunicação para a realização de ações médicas a distância”.

Levando-se em conta essa proposta ao pé da letra não dá para definirmos exatamente nem quando nem onde surgiu essa prática. Há algumas evidências históricas da possível utilização de recursos de comunicação na saúde a distância desde o antigo Egito e a antiga Babilônia, há milhares de anos antes de Cristo.

1. Na Europa, do período medieval, por conta da Peste Negra, há registros dos primeiros casos de Telessaúde da história. Um médico se isola na margem de um rio para atender a distância os pacientes na margem oposta. Evidenciando o quanto esse recurso é valioso para períodos de surtos epidêmicos, como o qual vivemos durante a pandemia.

2. No Século XIX, com a invenção do telégrafo e do telefone, o envio de laudos de exames se torna realidade, ficando ainda mais claro quando na Londres do início do século XX, SG Brown inventa o estetoscópio eletrônico, que transmite sinais por até 50 milhas.

Willem Einthoven, inventor do ECG (Eletrocardiograma), por exemplo já  fazia experimentos com consulta remotas via telefone, datadas em 1906.

3. Em Abril de 1924, a redação da Radio News Magazine faz uma publicação no jornal com uma perspectiva ‘’futurológica’’ sobre a telemedicina (antes da primeira transmissão de TV em 1927).

4. Durante a segunda guerra mundial, os rádios são utilizados para conectar médicos e profissionais de diferentes lugares, trocando informações, sendo muito cruciais dentro do conflito.

5. 1948, envios de Raio-X à 38 km de distância via telefone.

6. Em 1959, médicos do Nebraska realizaram a primeira teleconsulta ao vivo entre médicos para transmissão para casos de neuropsiquiatria.

7. No Logan, uma televisão interativa em preto e branco bidirecional foi usada para conectar os pacientes da clínica do aeroporto aos dermatologistas localizados no departamento de dermatologia de uma universidade do Hospital Massuchussets.

(É possível contar até mesmo que os gregos antigos e índios americanos já praticavam algo que podia ser chamado de telessaúde).

Apesar de toda essa evolução histórica, segundo o renomado pesquisador e professor Dr. Chao Lung Wen, chefe da disciplina de Telemedicina da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), a Telessaúde moderna surgiu há aproximadamente 60 anos, em um cenário de acontecimentos marcantes. 

Sim, é isso mesmo que você leu: A Telemedicina moderna surgiu há aproximadamente 60 anos!

Segundo ele:

“Ela surge em decorrência da Corrida Espacial e da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a antiga União Soviética. Sua principal finalidade era o provimento de serviços de saúde de qualidade, usando os melhores recursos de eletrônica e de telecomunicação dos respectivos momentos históricos”.

No mundo, essa área tecnológica teve seu início com os primeiros voos espaciais tripulados, na década de 60, quando foi necessário realizar uma telemetria de rádio para a monitorização dos sinais vitais de astronautas em órbita ou em viagem à lua. 

Já na década dos anos 70, diversos projetos pioneiros, utilizando ainda vídeo analógico comum e vídeo de varredura lenta, áudio analógico e telemetria por rádio, foram implementados de forma piloto em muitos países desenvolvidos pioneiros.

Na Itália, em 1970, a Universidade de Roma fez os primeiros experimentos com Tele-ECG com sucesso, replicando o modelo para pelo menos 50 hospitais no país. Tal experiência culminou na criação, em 1989, de um consórcio de cooperação envolvendo universidades, centros de pesquisa e o surgimento de diversas empresas de telemedicina no país.

Por conta das grandes dificuldades de recursos tecnológicos e à inexistência de redes digitais de área ampla com suficiente cobertura, esses projetos foram sendo gradualmente extintos.

No entanto, na década de 90, eis que surge um grande advento que revoluciona a telemedicina da maneira como a qual conhecemos hoje: a internet.

Num vídeo de agosto de 1993, o Dr. Michael Murphy contou ao Midday como os bancos de dados de computador através da revolução tecnológica da internet que emergia poderia ajudar os médicos a tratar os pacientes por meio da telemedicina.

A evolução da telemedicina de maneira exponencial foi novamente possibilitada devido ao surgimento das linhas de transmissão de dados de ampla distribuição, como rede comutada de pacotes, redes ISDN (Rede de Serviços Digitais Integrados) e a Internet (rede TCP/IP).

O método de atendimento médico remoto foi reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) no início dos anos 1990. 

Atualmente, o panorama da telemedicina é o seguinte:

Faz parte da realidade do dia a dia de milhares de instituições de saúde em todo o mundo, e é uma das áreas da medicina e saúde que mais avança em todo planeta, especialmente no contexto da pandemia e pós pandemia Covid-19. 

Na França, em 2020, país europeu que oferece a telemedicina no sistema público mas ainda engatinhava devido à resistência dos profissionais franceses, o número de teleconsultas subiu de 10 mil por semana em março para mais de 1 milhão na segunda semana de abril, segundo dados do próprio governo francês.

História da Telemedicina no Brasil 

No Brasil fica-se bastante claro que o desenvolvimento da telemedicina foi muito retardado em relação ao restante do mundo.

1. De modo geral um dos primeiros projetos de telemedicina brasileiro com a utilização de redes digitais foi realizada em 1985, por ocasião do maior acidente nuclear a céu aberto do mundo na cidade de Goiânia (Goiás), em que várias pessoas foram contaminadas por césio radioativo liberado de um equipamento médico abandonado.

Os médicos encarregados de realizar o laudo médico-legal do acidente, professores da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), utilizaram um sistema montado pelo Núcleo de Informática Biomédica da mesma Universidade, interconectando através da Rede Nacional de Pacotes, hospitais das cidades de Brasília, Goiânia, Rio de Janeiro e Campinas.

Utilizando correio eletrônico, os médicos recebiam relatórios diários da evolução das vítimas do acidente, internados nesses hospitais, e dialogavam pelo mesmo método com os médicos atendentes.

2. As experiências efetivas de telessaúde no Brasil só tiveram início de 90. Em 1994, foram iniciadas as operações da TELECARDIO, empresa especializada em realizar eletrocardiogramas à distância.

Em 1995, foi criado o serviço ECGFAX pelo InCor, que oferece análise de eletrocardiogramas enviados por fax de outras localidades para serem analisados por médicos do InCor.

O atraso do desenvolvimento da telemedicina no Brasil em relação ao restante do mundo se deve a alguns fatores como:

  • A falta de cultura e até uma certa resistência populacional em relação aos métodos da telemedicina;
  • Um certo lobby médico que muitas vezes não conseguem enxergar claramente seus benefícios, e..
  • As resistências de barreiras visando muitas vezes custos operacionais apenas favorecendo o lucro pessoal.

Outros importantes fatores são ainda o alto custo dos equipamentos de videoconferência e das linhas de conexão de alta velocidade, além de uma distribuição desigual e até mesmo precária da infraestrutura de telecomunicações e seu baixo investimento no território nacional.

3. Em 1998, a Rede Nacional de Informações em Saúde (RNIS) foi criada; o Instituto do Coração do Triângulo implantou seu programa de interpretação de ECG à distância e o InCor passou a oferecer seu serviço de ECG através da internet.

4. Em 1999, o Hospital Sírio-Libanês inaugura sua sala de teleconferências e a UNIFESP criou seu laboratório de Telemedicina dentro do Centro de Informática em Saúde.

5. No início dos anos 2000, houve um grande avanço na área de cobertura da telessaúde no Brasil. Teleconsultas com telepatologia e telerradiologia começaram a acontecer entre o Hospital Materno-Infantil de Recife. O Hospital Sírio-Libanês realizou, em parceria com o Hospital John Hopkins, de Baltimore (EUA) sua primeira telecirurgia.

Ainda nesse período, o InCor começou a monitorar seus leitos à distância e integrou seus sistemas de informações hospitalares e de arquivamento de imagens em rede.

6. Atualmente, existem mais de 25 instituições com Telemedicina no Brasil, entre as quais podemos citar a Associação Brasileira de Telemedicina e o Conselho Brasileiro de Telemedicina e Telessaúde, fundado em 2002.

7. Apenas em 2006, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) estabeleceu as condições para criação da Rede Universitária de Telemedicina (Rute), coordenada pela Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), com foco na conectividade e nas aplicações da Telemedicina em hospitais universitários e de ensino.

Distribuição da Rute na Telemedicina no Brasil

Atualmente em decorrência da pandemia do novo Sars-cov-2 a telemedicina vive um verdadeiro crescimento exponencial no Brasil, onde em 2021 a Telemedicina cresceu 316% no país durante a pandemia, segundo uma pesquisa levantada pela empresa de consultoria de Saúde Mercer Marsh.

Por fim, dados compilados pelo Saúde Digital Brasil mostram que o serviço online de telessaúde evitou mais de 4,5 milhões de idas ao pronto-socorro durante a pandemia, um movimento muito importante, tendo em vista o quanto foi importante para evitar a disseminação do vírus. 

Qual será o futuro da Telemedicina?

1. Desafios e perspectivas para a Telemedicina no Brasil

Se muita inovação vem surgindo, muitos desafios também vêm junto. A expectativa é que em 2050 haverá 2 bilhões de pessoas no mundo com mais de 60 anos. Com isso, mais de 80% dos custos da saúde estarão relacionados a doenças crônicas. Portanto, a telemedicina no mundo apresenta diversas vantagens para soluções nesse aspecto.  

Nos EUA, por exemplo, a adoção da saúde online por parte dos usuários subiu de 11% em 2019 para 46% atualmente. Entretanto, a McKinsey levantou que 76% dos consumidores demonstram interesse pela modalidade virtual. Já entre os profissionais que oferecem o serviço, a presença dos atendimentos remotos foi até 175 vezes maior.

2. Inovações em Inteligência Artificial e porque as grandes empresas estão de olho

Uma análise da produção científica do período de 2009 a 2019 publicada na Revista Eletrônica de Comunicação, Informação e Inovação em Saúde, editada pela Fundação Oswaldo Cruz, mostra o crescimento da produção científica sobre aprendizado de máquina aplicado à saúde, sendo os Estados Unidos o principal polo de pesquisa na área.

No setor privado, para citarmos um exemplo, no início de 2020, só a empresa Microsoft anunciou investimentos de US$40 milhões em inteligência artificial. Com essa tecnologia é possível criar e entender padrões e, com isso, acelerar a realização de diagnósticos e tratamentos.

Uma das aplicações de inteligência artificial durante a pandemia da Covid-19 foi desenvolvida pela Portal Telemedicina e consiste na utilização de um algoritmo que detecta indícios de Coronavírus em Raios-X e Tomografias e, dessa forma, contribui para a priorização de análise dos casos graves. 

Dentro do grande campo da Inteligência Artificial, outra tendência são as pesquisas que envolvem o conceito de Fairness. 

No contexto de aprendizado de máquina, um algoritmo com Fairness apresenta resultados de decisões tomadas pela IA que são independentes de vieses, especialmente relacionados a variáveis consideradas sensíveis, como as características dos indivíduos que não devem se correlacionar com o resultado (gênero, etnia, orientação sexual etc.).

3. Como a telemedicina poderá revolucionar a vida dos médicos

A Associação Paulista de Medicina (APM) realizou a Pesquisa Conectividade e Saúde Digital na Vida do Médico Brasileiro, em fevereiro de 2020, com 2.258 médicos, de 55 especialidades. Dentre as principais, estão Clínica Médica, Cardiologia, Ginecologia e Obstetrícia, Ortopedia e Neurologia.

De acordo com 90% dos médicos participantes, as novas ferramentas digitais com alto padrão de segurança e ética podem ajudar a melhorar a saúde da população.

Além disso, o mesmo percentual acredita que o sistema público de saúde poderia ser beneficiado com esses dispositivos em relação à diminuição das filas de espera por atendimento especializado. 

Já 70% acredita que a telemedicina permite ampliar o atendimento médico além do consultório, com segurança de dados e privacidade entre médico e paciente.

Além disso, 62% dos entrevistados responderam que utilizam alguma tecnologia de armazenamento de dados de pacientes e/ou compartilhamento de informação em sua clínica ou hospital. 

Questionados sobre a relação entre telemedicina e suas carreiras, 44% veem esse campo como uma oportunidade e outros 24% acreditam que ela possa ser uma oportunidade no longo prazo. 

4. A Ascensão das Healthtechs e a telemedicina

As Healthtechs são startups ou modelos de negócios voltados para a associação entre a oferta de serviços de saúde e tecnologias

Empresas como healthtechs criam soluções das mais diversas, desde plataformas que unificam e integram a gestão do estabelecimento, até tecnologias que auxiliam antes, durante e após procedimentos médicos, sendo boas partes delas empresas ligadas a telemedicina ou que prestam serviços de apoio para aqueles que estão ligados a telemedicina.

Para o futuro espera-se que alianças interessantes surjam entre as empresas de cuidados de saúde e as gigantes da tecnologia (Google, Microsoft, Amazom, Apple e etc), com cada uma trazendo seus pontos fortes diferentes.

Empresas de tecnologia tipicamente fornecem conhecimento digital, dados, insights de análise, experiência do cliente e grandes orçamentos de investimento. 

Já as entidades de saúde trazem conhecimentos clínicos e de mercado e a confiança do consumidor. Atualmente, há mais de 577 healthtechs no Brasil, que, juntas, empregam cerca de 10 mil pessoas, de acordo com o Distrito HealthTech Report 2020.

5. Outras perspectivas de futuro da Telemedicina

As infinidades de como a telemedicina pode beneficiar o avanço das tecnologias são enormes.

Acredita-se que cada vez mais poderão ocorrer cirurgias robóticas a distância, maior facilidades de acompanhamentos de médicos e pacientes a distância, globalização dos serviços de saúde como uma oferta podendo cada vez mais ocorrer independente das barreiras geográficas.

Análises multimodais de exames clínicos interligam a associação rápida de vários especialistas com a tecnologia, favorecendo diagnósticos mais rápidos e precisos, bem como maior integração de dados, beneficiando progressivamente as pesquisas e desenvolvimento cada vez mais rápidos para novas opções de tratamentos de muitas patologias.

Enfim, as possibilidades que a revolução tecnológica traz para o futuro da telemedicina são inimagináveis, podendo proporcionar coisas que hoje em 2021 ainda nem sonhamos existir.

Tal futuro pode trazer transformações significativas até mesmo com as novas ferramentas tecnológicas, como a realidade aumentada e realidade virtual. Aguarde novidades sobre esses tópicos.

Quer ficar por dentro do universo da telecardiologia? Continue acompanhando o blog da TME para se manter atualizado e informado.

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Por Paulo Miranda Filho

Médico, diretor de crescimento na TME, professor de empreendedorismo no MBA Health do BBI of Chicago, Gestão de TI (FIAP) e Especializando Gestão de Negócios (FDC).

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